{"id":2364,"date":"2026-08-31T18:31:15","date_gmt":"2026-08-31T21:31:15","guid":{"rendered":"https:\/\/velodrome.com.br\/?p=2364"},"modified":"2026-08-31T18:31:15","modified_gmt":"2026-08-31T21:31:15","slug":"sheldon-brown-mecanico-que-ensinou-a-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/velodrome.com.br\/?p=2364","title":{"rendered":"Antes do YouTube, havia Sheldon Brown"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Vi recentemente uma postagem sobre Sheldon Brown acompanhada por algumas de suas fotografias. Meus olhos se encheram de l\u00e1grimas.<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso acontece quase sempre que penso em quem foi Sheldon, e que ele n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image uagb-block-c3f1fc71 wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-none\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/velodrome.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Sheldonbrown02-853x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"uag-image-2365\" width=\"498\" height=\"598\" title=\"Sheldonbrown02\" loading=\"lazy\" role=\"img\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 estranho sentir saudade de algu\u00e9m que nunca encontrei pessoalmente. Nunca apertei sua m\u00e3o, nunca entrei na Harris Cyclery e provavelmente nunca troquei uma mensagem diretamente com ele. Ainda assim, Sheldon Brown tornou-se uma esp\u00e9cie de amigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um amigo absolutamente generoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante quase duas d\u00e9cadas, recorri ao <a href=\"https:\/\/www.sheldonbrown.com\/\">sheldonbrown.com<\/a> sempre que precisava compreender alguma coisa sobre bicicletas. E Sheldon estava l\u00e1, explicando. Nunca ofereci nada a ele al\u00e9m da minha audi\u00eancia \u2014 numa \u00e9poca em que audi\u00eancia ainda n\u00e3o era mercadoria, n\u00e3o gerava receita automaticamente e n\u00e3o fazia de ningu\u00e9m um influenciador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele n\u00e3o pedia inscri\u00e7\u00e3o, compartilhamento ou ativa\u00e7\u00e3o do sininho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o conduzia o leitor por um funil de vendas. N\u00e3o interrompia a explica\u00e7\u00e3o para oferecer um curso. N\u00e3o escondia a parte mais importante atr\u00e1s de uma assinatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entregava o conhecimento inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso, quando penso nele, n\u00e3o me lembre apenas de um site. Lembro-me de algu\u00e9m que me ajudou durante anos sem jamais saber quem eu era.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes dos v\u00eddeos de manuten\u00e7\u00e3o no YouTube, dos Reels ensinando regulagens em trinta segundos e dos f\u00f3runs substitu\u00eddos por grupos de WhatsApp, havia Sheldon Brown.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea digitava no Google alguma d\u00favida estranhamente espec\u00edfica \u2014 uma medida antiga de pneu, uma rosca que n\u00e3o parecia compat\u00edvel com nada, um cubo ingl\u00eas esquecido pelo mercado ou uma rela\u00e7\u00e3o de marchas aparentemente imposs\u00edvel \u2014 e, quase inevitavelmente, acabava em uma p\u00e1gina dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas minha rela\u00e7\u00e3o com Sheldon come\u00e7ou num tempo em que ainda carreg\u00e1vamos outra forma de procurar respostas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sou de uma gera\u00e7\u00e3o que cresceu antes do Google.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando quer\u00edamos compreender alguma coisa, procur\u00e1vamos numa enciclop\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um site com linguagem de enciclop\u00e9dia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O site de Sheldon Brown era visualmente peculiar mesmo para os padr\u00f5es da \u00e9poca. Tinha fundos simples, links azuis, pequenas figuras animadas, fotografias espalhadas e enormes blocos de texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image uagb-block-ef0db45e wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-none\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/velodrome.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Sheldonbrown10-853x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"uag-image-2366\" width=\"500\" height=\"600\" title=\"Sheldonbrown10\" loading=\"lazy\" role=\"img\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para algu\u00e9m acostumado \u00e0 internet contempor\u00e2nea, pode parecer desorganizado, antiquado ou at\u00e9 dif\u00edcil de navegar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para mim, entretanto, ele sempre teve algo de familiar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O site de Sheldon tinha linguagem de enciclop\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o apenas porque reunia uma quantidade enorme de informa\u00e7\u00f5es, mas porque partia de uma ideia que hoje parece quase revolucion\u00e1ria: um assunto merece ser explicado por inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma p\u00e1gina conduzia a outra. Um termo levava a uma defini\u00e7\u00e3o, que abria uma exce\u00e7\u00e3o, que exigia uma nota hist\u00f3rica, que acabava numa tabela de compatibilidade. O leitor podia chegar procurando uma medida de pneu e sair entendendo padr\u00f5es de aro, nomenclaturas francesas, hist\u00f3ria industrial e as raz\u00f5es pelas quais dois pneus com n\u00fameros aparentemente semelhantes n\u00e3o serviam na mesma roda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o era conte\u00fado organizado para produzir uma resposta r\u00e1pida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era conhecimento organizado para produzir compreens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image uagb-block-a7270adf wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-none\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/velodrome.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Sheldonbrown09-853x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"uag-image-2368\" width=\"458\" height=\"550\" title=\"Sheldonbrown09\" loading=\"lazy\" role=\"img\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu cresci cercado por esse tipo de linguagem. Venho de uma fam\u00edlia profundamente acad\u00eamica. Meu pai, minha m\u00e3e e meu irm\u00e3o s\u00e3o mestres e doutores, e os tr\u00eas se tornaram professores titulares da Universidade de S\u00e3o Paulo, cada um em uma \u00e1rea diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O academicismo, portanto, nunca foi para mim uma abstra\u00e7\u00e3o distante. Fazia parte da conversa familiar, da maneira de formular perguntas e da ideia de que uma afirma\u00e7\u00e3o precisa ser sustentada por algum racioc\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sheldon n\u00e3o escrevia exatamente como um professor universit\u00e1rio. Havia humor demais, bicicletas estranhas demais e uma liberdade pessoal que provavelmente n\u00e3o caberia num artigo cient\u00edfico tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas existia academicismo em seu m\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele definia os termos, apresentava o contexto hist\u00f3rico, registrava as exce\u00e7\u00f5es, comparava padr\u00f5es e explicava os fundamentos. Parecia preocupado n\u00e3o apenas em dar a resposta correta, mas em deixar um registro que outra pessoa pudesse consultar anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu site era uma enciclop\u00e9dia constru\u00edda dentro de uma oficina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja por isso que eu nunca o tenha enxergado simplesmente como uma cole\u00e7\u00e3o de tutoriais. Era uma tentativa de organizar o conhecimento sobre a bicicleta \u2014 inclusive aquele conhecimento que a ind\u00fastria abandonava quando deixava de ser comercialmente \u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conhecimento antes de a audi\u00eancia virar moeda<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, praticamente todo conte\u00fado dispon\u00edvel na internet participa de alguma forma de transa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A audi\u00eancia gera an\u00fancios, dados, autoridade, contratos, vendas ou relev\u00e2ncia para o algoritmo. Isso n\u00e3o torna o conte\u00fado necessariamente ruim, mas modifica a rela\u00e7\u00e3o entre quem ensina e quem aprende.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image uagb-block-947bfc89 wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-none\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/velodrome.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Sheldonbrown05-853x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"uag-image-2369\" width=\"416\" height=\"499\" title=\"Sheldonbrown05\" loading=\"lazy\" role=\"img\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com Sheldon, a sensa\u00e7\u00e3o era outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele parecia escrever porque havia compreendido alguma coisa e considerava quase uma obriga\u00e7\u00e3o compartilhar aquilo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez essa tamb\u00e9m fosse uma manifesta\u00e7\u00e3o de seu lado acad\u00eamico: conhecimento n\u00e3o deveria morrer na bancada de quem o descobriu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o importava se aquela informa\u00e7\u00e3o ajudaria milhares de ciclistas ou apenas o propriet\u00e1rio de uma Raleigh de tr\u00eas marchas fabricada em 1957. Se o problema existia, podia ser investigado. Se podia ser compreendido, valia a pena ser explicado. E, se havia sido explicado, deveria permanecer dispon\u00edvel para a pr\u00f3xima pessoa que precisasse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu nunca paguei Sheldon por esse trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca comprei nada da Harris Cyclery.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca pude retribuir diretamente as horas que ele me poupou nem as coisas que me ajudou a compreender.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo o que ofereci foi audi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, naquele tempo, audi\u00eancia ainda n\u00e3o monetizava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja justamente por isso que sua generosidade me pare\u00e7a t\u00e3o radical hoje.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Talvez eu gostasse tanto dele porque \u00e9ramos parecidos<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante muito tempo, pensei que recorria a Sheldon Brown apenas porque ele sabia muito sobre bicicletas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image uagb-block-c7a95747 wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-none\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/velodrome.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Sheldonbrown04-853x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"uag-image-2370\" width=\"433\" height=\"520\" title=\"Sheldonbrown04\" loading=\"lazy\" role=\"img\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje percebo que existia outra raz\u00e3o: eu reconhecia nele uma forma familiar de curiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu fui fot\u00f3grafo. Sheldon tamb\u00e9m foi fot\u00f3grafo e trabalhou durante anos consertando c\u00e2meras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre gostei de reparar o que aparece na minha frente \u2014 bicicletas, m\u00f3veis, instrumentos musicais, equipamentos e qualquer objeto que me fa\u00e7a pensar: \u201cComo isso funciona?\u201d. Sheldon passou a vida desmontando, estudando, modificando e reconstruindo bicicletas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m gosto de entender n\u00e3o apenas o funcionamento das coisas materiais, mas a l\u00f3gica por tr\u00e1s das ideias. \u00c0s vezes s\u00e3o quest\u00f5es mec\u00e2nicas. Em outras, filos\u00f3ficas, pol\u00edticas ou \u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivo elucubrando, por exemplo, que, quando o jornalismo abandona a \u00e9tica, ele n\u00e3o se transforma apenas num jornalismo ruim. Ele perde a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o que justificava sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o tipo de racioc\u00ednio que come\u00e7a numa afirma\u00e7\u00e3o aparentemente simples, abre uma porta, encontra outra pergunta atr\u00e1s dela e, quando voc\u00ea percebe, j\u00e1 est\u00e1 procurando os fundamentos do problema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que Sheldon Brown funcionava um pouco assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma bicicleta nunca era apenas uma bicicleta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era um sistema mec\u00e2nico, uma hist\u00f3ria industrial, uma linguagem t\u00e9cnica e, ao mesmo tempo, uma express\u00e3o das escolhas de quem a construiu e de quem a utilizava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o tenho a pretens\u00e3o de comparar meu conhecimento ao dele. Sheldon estava em outra prateleira. Mas as coincid\u00eancias me ajudam a entender por que sua presen\u00e7a se tornou t\u00e3o importante para mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s dois fomos fot\u00f3grafos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s dois criamos o h\u00e1bito de consertar objetos e investigar o funcionamento das coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A m\u00fasica apareceu em nossas vidas. A bicicleta ocupou parte central delas. A Fran\u00e7a e o Paris\u2013Brest\u2013Paris atravessaram nossas hist\u00f3rias \u2014 Harriet Fell, mulher de Sheldon, esteve entre os primeiros norte-americanos a participar da prova, em 1975; eu fiz dois Paris\u2013Brest\u2013Paris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00f3s dois, aparentemente, temos alguma dificuldade em aceitar respostas que terminem antes do \u201cpor qu\u00ea?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O amigo que nunca soube meu nome<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sheldon Brown morreu em 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais de uma d\u00e9cada depois, seu site continua ensinando. Sua mulher, Harriet Fell, e seu amigo John Allen preservam, revisam e ampliam aquele gigantesco acervo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image uagb-block-fdeb42ea wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-none\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/velodrome.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Sheldonbrown07-853x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"uag-image-2371\" width=\"429\" height=\"515\" title=\"Sheldonbrown07\" loading=\"lazy\" role=\"img\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas talvez a palavra \u201cacervo\u201d ainda seja pequena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para mim, o site preserva uma forma de rela\u00e7\u00e3o com o conhecimento. Uma rela\u00e7\u00e3o em que saber alguma coisa criava a responsabilidade de explic\u00e1-la. Em que a profundidade n\u00e3o era um defeito. Em que o leitor n\u00e3o era tratado como um consumidor impaciente, mas como algu\u00e9m capaz de compreender.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sheldon n\u00e3o sabia meu nome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sabia que eu era fot\u00f3grafo, que tamb\u00e9m gostava de desmontar coisas, que um dia teria uma loja de bicicletas ou que participaria duas vezes do Paris\u2013Brest\u2013Paris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sabia quantas vezes eu abriria uma de suas p\u00e1ginas procurando uma medida, uma compatibilidade ou uma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas esteve ao meu lado em todas essas ocasi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja isso que me emocione tanto quando penso em sua morte. N\u00e3o perdi apenas uma refer\u00eancia t\u00e9cnica. Perdi algu\u00e9m que, sem saber quem eu era e sem esperar absolutamente nada de mim, dividiu comigo o que havia aprendido durante uma vida inteira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca conheci Plat\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca conheci Charles Darwin, Karl Marx ou Adam Smith.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhum deles soube meu nome. Nenhum deles imaginou as perguntas que eu faria ou o mundo em que eu viveria. Ainda assim, suas ideias atravessaram o tempo, chegaram at\u00e9 mim e mudaram minha maneira de compreender a \u00e9tica, a natureza, a sociedade e a economia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conhecimento tem essa capacidade extraordin\u00e1ria: permite que uma pessoa continue conversando com outras muito depois de sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, respeitadas todas as diferen\u00e7as de assunto e dimens\u00e3o hist\u00f3rica, foi isso que Sheldon Brown fez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele reuniu o conhecimento de uma vida, organizou-o com a precis\u00e3o de um acad\u00eamico, explicou-o com a paci\u00eancia de um professor e o ofereceu com a generosidade de um amigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez n\u00e3o tenha mudado o mundo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas mudou o mundo de milhares de pessoas que queriam compreender suas bicicletas \u2014 e, ao torn\u00e1-las mais capazes, mais curiosas e mais aut\u00f4nomas, ajudou a mudar tamb\u00e9m um pequeno peda\u00e7o do mundo ao redor delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image uagb-block-0ff6f32f wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-none\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/velodrome.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/sheldonbrow_tandem.webp\" alt=\"\" class=\"uag-image-2372\" width=\"496\" height=\"403\" title=\"sheldonbrow_tandem\" loading=\"lazy\" role=\"img\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sheldon Brown morreu em 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas continua conversando comigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E aquele homem que nunca soube meu nome tornou-se, de alguma maneira, um dos amigos mais generosos que tive na minha carreira com bicicletas. Ele tamb\u00e9m \u00e9 um dos respons\u00e1veis pela exist\u00eancia da Velodrome e do prop\u00f3sito que cultivamos no nosso neg\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Esse texto \u00e9 uma tentativa de dar um abra\u00e7o e expressar minha gratid\u00e3o ao Sheldon onde quer que ele esteja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vi recentemente uma postagem sobre Sheldon Brown acompanhada por algumas de suas fotografias. Meus olhos se encheram de l\u00e1grimas. Isso acontece quase sempre que penso em quem foi Sheldon, e que ele n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s. \u00c9 estranho sentir saudade de algu\u00e9m que nunca encontrei pessoalmente. 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